Ponte de Lima é um local fantástico. Já conhecíamos alguns locais e possivelmente grande parte dos portugueses já visitou a vila mais antiga de Portugal. Razões para visitar não faltam e possivelmente será o que o perceberão do nosso post. Escolhemos o Cerquido Village. Fomos numa altura mais calma para evitar as feiras novas e das vacas das cordas que já são muito famosas. Queríamos descobrir outros lugares e perceber um pouco dos segredos desta vila que tem conseguido captar o interesse de meio mundo e principalmente os mais jovens, quando a tendência é procurarem mais o litoral. Sim, é muito bonita e está muito bem cuidada. Mas aqui não falta o que fazer e visitar e por isso fomos todo o fim de semana. Queríamos ter ido mais cedo, mas infelizmente alguns imprevistos fizeram com que chegássemos bem tarde. O destino era o cerquido village e a viagem pela serra não seria tão aproveitada. Ainda assim tivemos a ajuda (impagável) da Bernardete que nos mostrou e aconselhou uma solução muito prática para quem chega a tarde para cozinhar e jantar (e económica). Passamos pelo Iguarias take-away onde escolhemos e levamos o nosso jantar para aproveitarmos em casa. Chegamos tarde e ainda nos serviram. Para além disto ainda acabamos numa longa conversa e acabamos por conhecer um pouco da história deste simpático casal e por onde já tinham andado. A barriga dava tantas horas e não havia forma de deixar a conversa. Fomos de noite pela Serra, mas a viagem fez-se muito bem. Quando chegamos estávamos perto do topo da Serra e com uma vista fantástica para o vale do lima. Era a casa da montanha e já estava frio. Corremos para dentro e só espreitamos a casa e toca a comer! Só depois conseguimos explorar a casa que é tão bonita.

Acordamos não muito cedo com a claridade que vinha das janelas. Uma paisagem de montanha num telhado tão bonito e num quarto tão acolhedor. Descemos as escadas e vimos a casa de outra forma. Fizemos o pequeno almoço e tomamos no jardim exterior. Estava um sol fantástico e apesar de estarmos em plena montanha não se sentia grande filme. A mesa era muito bonita e podermos tomar um café e respirar este ar, não se pode pedir muito mais. Cá fora tinha uma espécie de relvado sintético, um chuveiro e espreguiçadeiras. O ideal para o Verão. Para nós já não foi. Pegamos na bicicleta e fomos dar um passeio de bicicleta de montanha. Tem fama pelos seus trilhos, e muito à custa do trabalho feito pelo Ponte de Lima Bike Park. Desde a marcação à promoção. Não foi difícil seguir alguns dos trilhos. Ainda assim não cumprimos na totalidade, pois queríamos que passasse junto às lagoas de Bertiandos e depois ir até Ponte de Lima. O nosso objetivo não passava por pedaladas muito sérias. Queríamos espreitar a vila e também almoçar porque para fim do dia já tínhamos planos. Se o percurso na zona serra é montanhoso e requer alguma preparação, junto ao rio, é quase todo plano. Facilmente se chega à ecovia do Loureiro que vai ligar à ponte romana e daí escolher sítio é fácil. Não falta escolha. Desde restaurantes a locais para petiscar. Diga-se que é um dos locais em Portugal com mais fama de se comer bem. Arroz de sarrabulho, rojões à minhota, lampreia e há quem fale no champarião. Nós fomos para algo mais leve para ser mais rápido e para explorarmos mais.

Já nos esperavam na Taberna do Juiz e desta vez conhecemos o André , menos falador, mas igualmente simpático. Tinham colocando uma mesa super bonita e simpática para nós. Sugeriram-nos alguns petiscos bem tradicionais e nós aceitamos. Ficamos fãs do azeite e das azeitonas que nos serviram. O azeite vinha quente e marinaram para que ficassem com um sabor ainda melhor. Uma salada de hortelã com presunto. Leve e fresca, para o que vinha depois. Cogumelos salteados c/ pedacinhos de chouriço e um bacalhau desfiado com o tempero no ponto. Pode parecer estranho, mas ainda tivemos barriga para sobremesas. Bolo de amora e requeijão com compota de abóbora. Mesmo típico da beira. Caminhamos um pouco pela aldeia do juízo para desgastar um bocado antes de dormir.

De manhã acordamos bem cedo pois queríamos fazer uma caminhada. O pequeno almoço estava à nossa espera e abusamos um pouco. É difícil não o fazermos, quando as coisas são tão caseiras. O Sr. José tinha perguntado se o queríamos acompanhar na sua caminhada à volta da aldeia e conhecer alguns dos locais mais bonitos e menos percorridos. O caminho partilha várias vezes os trilhos da GR 22 – Grande rota das aldeias históricas.  Ao longo desta caminhada íamos ouvindo atentamente as histórias e ensinamentos. Imensas perguntas que nem sempre sabíamos responder, mas sem dúvida que aprendemos imenso. Passamos por locais lindíssimos, uns com mais sorte que outros, pois incêndios já andaram próximos. Não estamos longe da reserva natural da Faia Brava. É muito única e é um local onde se pode ver imensas aves no seu habitat e onde estão protegidas. Passamos por um bosque de líquen com uma cor e luz digna de conto de Harry Potter. São raros pois só existem em locais onde o ar é realmente puro. A nossa caminhada levou-nos até à aldeia e aos pequenos locais quase esquecidos. Grande parte preservados e muitos deles recuperados pelo amor do Sr. José à aldeia e às ruralidades portuguesas. O gosto de mostrar e ensinar a quem desconhece todos os engenhos de outras épocas. Tudo era feito com alguma razão e possivelmente de forma bem mais inteligente. Muita coisa foi se perdendo, mas ainda bem que foi sendo recuperada nesta espécie de museu de ruralidades. Fomos ajuizados na fonte do juízo. Gentilmente o protocolo foi cumprido e pensamos que partimos com um pouco mais de juízo. Umas cabeçadas na fonte foram suficientes.

Não foi difícil passar a tarde a simplesmente falar. A aprender (muito) e a contar também um pouco das nossas vivências. Este intercâmbio deixa-nos preenchidos. Foi assim que ficamos ao ouvir o Sr. José e a Dª Isabel e já agora os “jovens”. Nome que carinhosamente são tratados o André e a Daniela. Somos um casal do litoral que é não é assim tão diferente. Somos um casal que adora viajar e descobrimos também estes dois casais personificam também o que é fugir. Se muitas pessoas pensam que já viajamos muito, deviam “perder” também umas horas a ouvir das inúmeras viagens pelo mundo do Sr. José. Alguns sítios dizem-nos mais, mas são as pessoas que nos fazem sentir bem-vindas e foi que o que aqui sentimos.

Começamos a fugir a partir do momento em que saímos de casa. Desta vez a preparação não tomou muito tempo. Já temos o saco quase pronto, é quase o nosso “kit fugir”. Se nos der na cabeça, lá vamos nós. A viagem foi tranquila. A estrada é muito boa e tem pouco trânsito. Até dá prazer conduzir assim. Já perto de Marialva, viramos para a Aldeia do Juízo. Era este o nosso destino. Não que nos falte juízo, mas o que tínhamos visto em fotos, fez-nos ir sem pensar duas vezes.  Chegamos à aldeia e não foi difícil dar com as Casas do Juízo. Estávamos ainda a sair e já tínhamos a Daniela a dar-nos as boas vindas e com um bonito e enorme sorriso. Fomos convidados para a receção onde a Daniela nos conheceu um pouco, mas principalmente deu a conhecer as casas do juízo e a aldeia. Tivemos direito a provar a (boa) “pinga” do juízo e os ajuizados que foram os biscoitos (à base de amêndoa) criados na aldeia. Eram (ambos) muito bons e não adivinhamos à primeira qual era o fruto por trás da pinga. A receita dos ajuizados é caseira criada pela D. Isabel (uma das donas das casas). Falamos um pouco da zona raiana que tem crescido a procura na área do turismo, inclusive da comunidade judaica.

A Daniela levou-nos a conhecer a casa e o resto da propriedade. Foi quando conhecemos a  (simpática) D.Isabel. Estava a vir dos animais que tinha ido cuidar e aproveitamos para os conhecer. Vê-se que os adoram e que são muito bem estimados. Conhecemos o gato Chico a cabrita Victória, a burrita Tita e os patos bravos e galinhas. Todos em bela comunhão. Ainda passamos pela estufa biológica que estava pelo caminho. A taberna usa alguns dos ingredientes vindos de daqui. Fora tinha uma bonita nora recuperada e um sapinho a espreitar. Notou-se o gosto e a estima em tudo o que vimos. O que fez com que não estivéssemos com muita pressa para ficar sozinhos.

Ficamos na casa do Palheiro. Decoração simples, tradicional e bonita. Madeira de excelente qualidade e nem aqui pouparam no gosto pela tradição e qualidade. Tem uma mezanine com uma sala de estar e cozinha toda equipada. Não chegamos a utilizar porque fomos sempre à taberna do juiz que era mesmo ao lado. Apesar de termos vindo no Verão e ter Ar condicionado vimos que no Inverno ainda dever uma mística diferente. O quarto tinha Salamandra e cobertores não faltavam também. A casa de banho tem acesso e está preparada para pessoas que com mobilidade reduzida.

Existem mais casas disponíveis e a principal esconde uma mina de água mágica. Por exemplo a casa da roseira. Um pouco maior para famílias grandes toda à base de granito. A decoração não difere muito da do palheiro assim como o conforto. O isolamento é fantástico e seja Verão ou Inverno e ficamos incrivelmente bem. Em caso de desconfiança, ainda há uma salamandra. Tem um pequeno terraço coberto onde se podem passar uns momentos. À entrada tinha uma charrete lindíssima que nos obrigou a tirar várias fotos.

Não perdemos mais tempo e fomos explorar a piscina coberta exterior. Estava descoberta e aproveitamos o calor e o bonito fim de tarde que estava. Tempo para um duche rápido e fomos a correr para a taberna…